
Pedro Luiz Roccato

A volatilidade do câmbio após o estouro da crise tem dificultado o dia a dia dos profissionais de todos os elos da cadeia. A desvalorização do real perante o dólar tem oscilado tanto diariamente que uma medida adotada pelas Bolsas de Valores chamada circuit breaker tem sido adotada também na operação dos distribuidores. O circuit breaker consiste em uma condição de negociação que é adotada pelas Bolsas de Valores onde o pregão é imediatamente interrompido toda vez que o índice representativo dos preços de um conjunto de ações tenha queda muito acentuada. Na Bolsa de Valores de São Paulo o circuit breaker é adotado quando o Ibovespa tem uma queda de 10%. Nas últimas semanas, alguns distribuidores têm adotado a mesma medida quando a flutuação da moeda norte-americana chega a valores de elevado risco, sendo o índice que aciona o circuit breaker dos distribuidores específico por empresa. Quando acionado, as vendas são suspensas e o sistema sai fora do ar até que tenham maior visibilidade dos indicadores.
Se considerarmos a variação acumulada no ano, já temos 30% de desvalorização do real perante o dólar, com elevadíssima concentração nas últimas semanas. Independente de produção local ou não, os produtos de tecnologia são direta ou indiretamente indexados pelo dólar, pois se não importados os produtos acabados, importamos os insumos para produção local, o que pode amenizar mas não blindar os custos perante momentos de incertezas como o que estamos passando. Em contato com os presidentes e diretores dos principais fabricantes e distribuidores que operam no Brasil, o momento de incertezas é elevadíssimo, principalmente daqueles que respondem por operações multinacionais. Alguns distribuidores estão vendendo apenas produtos que estão disponíveis no estoque e sequer aceitam pedidos de produtos indexados em dólar, exceto casos em que o fabricante definiu um dólar fixo para operação, como acontece com Microsoft e Symantec, por exemplo.
A retração dos clientes finais é proporcional às cifras envolvidas no negócio proposto. Operações no mercado de varejo e SoHo (Small Office e Home Office) não apresentado expressiva retração, visto que os preços de venda (street price) em grande parte dos casos não sofreu alteração e o consumidor ainda continua tendo como base para decisão de compra o valor da parcela compatível ao seu orçamento doméstico. Acredito que a situação possa mudar quando a variação da moeda for repassada nos preços de venda ou ainda quando perceber que o seu emprego pode estar comprometido caso a crise se estenda por um tempo maior do que esperamos. Quando analisamos o mercado SMB (Small and Medium Business) ou também conhecido como PME (Pequenas e Médias Empresas), o impacto já começa a ser sentido, com menor intensidade no “S” do que no “M”, visto que grande parte das pequenas empresas ainda toma a decisão como consumidores, o que não acontece nas médias empresas, que em grande parte dos casos suspenderam projetos que não foram considerados emergenciais ou fundamentais para andamento dos negócios. Quando chegamos ao mercado corporativo (grandes empresas) ou mesmo de negócios da vertical de Governo, a situação realmente começa a ficar mais preocupante, pois são raros os movimentos de investimentos em TI em momentos de considerável oscilação como o atual.
Quando analisamos o risco para os revendedores e distribuidores, o cuidado deve ser redobrado na formulação de propostas e definição do modelo de precificação, pois o risco pode se tornar elevado se houver um desencontro entre o valor de recebimento e o de pagamento, bem como fluxo de caixa, ou seja, compatibilização entre data de recebimento e pagamento. Como há canais (revendedores e distribuidores) com grande parte de seu capital de giro comprometido em estoque, muitas vezes adquirido com o dólar mais baixo, tenho acompanhado movimentos arriscados de venda do estoque a preços abaixo do sugerido para capitalização da empresa. Medidas como esta, diante de um cenário de elevadas incertezas, representa inúmeros riscos, pois além de desposicionar o preço de venda do produto, reduzirá o seu poder de recompra, pois o mesmo capital de giro não será suficiente para recomposição do estoque diante da desvalorização do real atual de 30%.
Portanto, muito cuidado na tomada de decisões, pois em momentos de elevada falta de visibilidade futura, temos que preservar nossas empresas de intempéries que possam prejudicar a longevidade e sustentabilidade dos negócios. Atenção redobrada nessa hora!

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